O complexo de vira lata do brasileiro

Para quem não conhece essa expressão, inicio esse texto explicando que complexo de vira lata se refere a uma frase do grande Nelson Rodrigues, que sintetizou nessas palavras o sentimento do brasileiro referente à final da Copa do Mundo de 1950, realizada em solo tupiniquim e perdida para nosso hermanos uruguaios. Atualmente, porém, a expressão vem sendo utilizada para descrever a inferioridade que o brasileiro se coloca, de bom grado, frente a outras nações desse nosso mundão.

Escolhi esse tema como meu primeiro após meu período de férias — onde viajei por quase um mês pelo velho continente — por conta da grande quantidade de pontos em que vi nossa atual situação exatamente igual, ou até superior em muitos casos, à que encontrei em alguns dos países europeus em que estive.

Obviamente que a comparação de “primeiro mundo vs nós” tende mais para o lado europeu da balança, mas devo dizer que não são poucas as situações em que, sim, estamos muito à frente deles, especialmente em pontos bastante importantes, como higiene e acessibilidade, por exemplo. Continue comigo no texto e verifique quais são esses pontos, o porquê de estarmos em melhor situação e o que comprova o tal complexo de vira lata que tanto ouvimos.

 

Higiene

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Para quem acha que os europeus estão anos luz à frente de nós, é bom deixar claro que alguns conceitos básicos de higiene são ignorados por lá com certa regularidade.

Provavelmente você já deve ter ouvido que em alguns países é comum sentir um forte odor de seus habitantes pela falta de banho — ou de um simples desodorante —, mas devo admitir que não senti nada disso, talvez por conta do clima frio que acabei pegando na primavera do hemisfério norte. Ainda assim, por vários momentos me senti até mal pela clara falta de higiene.

Em uma delas, em uma padaria na cidade de Paris, os pães ficavam expostos no balcão, entre o consumidor e o caixa, o que fazia com que o pagamento ocorresse, literalmente, acima dos alimentos. O cliente antes de mim acabou derrubando parte de seu pagamento nos produtos, o que não impediu o atendente de retirar as três moedas do meio dos pães como se nada tivesse ocorrido. Fiquei feliz que não iria consumir nenhum daqueles itens… Ainda nesse estabelecimento, pude ver algo que também ocorreria em outros diversos momentos da viagem: atendentes lidando com dinheiro e alimentos sem nenhuma luva ou proteção. A mão que pega o pão é a mesma mão que dá o troco. Simples assim.

Em outro momento, na belíssima cidade de Hamburgo, na Alemanha — a qual achei uma das mais lindas e organizadas que já estive —, durante um jantar em um bom restaurante, com uma ótima localização e preços nem um pouco baratos, fomos surpreendidos por um simpático — mas ainda assim não convidado — camundongo que ficava andando pelo recinto como se nada estivesse ocorrendo.

Talvez você esteja pensando algo como “Ah, mas eu já vi tudo isso no Brasil também”, e eu não só entendo, mas concordo com seu ponto de vista. O que exponho aqui é que, como países de primeiro mundo que são, esperava não passar por esse tipo de situação nem na França nem na Alemanha.

 

Trânsito

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Se você mora em um grande centro brasileiro, como São Paulo Rio de Janeiro ou alguma outra capital, sabe bem o que é o trânsito que pegamos nesses locais, tanto em questão de organização quanto em quantidade de veículos. Ao mesmo tempo, com certeza já ouviu falar sobre a qualidade do transporte público europeu e seus efeitos positivos sobre o trânsito.

Bom, é fato que não peguei em nenhuma cidade lá metade do trânsito que peguei aqui — simplesmente para sair do aeroporto de Guarulhos e chegar na rodovia Castelo Branco, com destino ao interior paulista — em minha volta para casa. Mas devo dizer que as grandes cidades de lá, como Londres, Paris e, principalmente, Roma, não são também um exemplo de trânsito não…

Como qualquer grande cidade, a enorme quantidade de veículos atrapalha muito por lá, tanto que o transporte público ajuda, mas nem de longe soluciona os problemas de fluxo de carros. É comum sim perder tempo no trânsito, tanto quanto em qualquer cidade média brasileira.

Além disso, devo admitir que fiquei até espantado, de certa forma, com a maneira com que eles dirigem nessas grandes cidades, sem ter muitas regras para trocar de faixa, parar para descer um passageiro, ou até quanto à velocidade dos motoristas. É fato que nosso trânsito é pior, mas definitivamente é muito mais fácil dirigir em São Paulo do que em Roma, não tenha dúvidas.

Para finalizar o tópico, aviso que, embora na grande maioria das cidades o asfalto seja praticamente impecável, não espere por isso em algumas capitais de lá, especialmente de Roma. Juntando o trânsito com a rua, a impressão que se tinha era de que estávamos no centro de São Paulo em plena Europa.

 

Organização e Educação

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Talvez possa parecer estranho para você ler este tópico aqui, visto que a Europa é conhecida justamente por sua organização e alto nível de educação. Explico: alguns pontos referentes a esse tópico se baseiam na experiência do turista nas cidades, e não na experiência dos moradores.

Como exemplo, posso citar primeiramente a cidade de Paris, que embora magnífica, apresenta uma grande dificuldade para que os visitantes andem por ela por conta da falta de pontos de taxi próximos aos locais mais turísticos. Por muitas vezes, é preciso andar diversos quarteirões ou ficar implorando para algum taxista da rua parar. Pode parecer pouco, mas é uma experiência ruim principalmente quando se pega uma chuva pesada como pegamos.

Além disso, devo admitir que a sinalização das cidades não é das melhores, ao menos se comparada a alguns municípios brasileiros. Por vezes é difícil encontrar pontos turísticos muito conhecidos simplesmente porque nada te informa sua localização. Para quem está acostumado à poluição visual de tantas placas em São Paulo — mas que ajudam muito —, é bastante complicado se encontrar por lá.

Sobre a educação, é fato que esse é um tópico muito mais cultural que de educação em si, mas ainda assim é preciso salientar que o atendimento europeu não chega nem aos pés do brasileiro, especialmente na forma de tratar o cliente e em tentar entender suas necessidades. Ainda que cultural, é algo a ser notado.

 

Acessibilidade e Cigarro

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Acredito que este tenha sido o tópico que mais me espantou, visto que ficou clara a vantagem brasileira quando o assunto é acessibilidade. De todos os hotéis que ficamos, 90% possuíam ao menos um local em que havia escadas, mas nenhuma rampa ou elevador. Para quem estava viajando com quatro malas isso é bastante inconveniente, então imagine para quem utiliza uma cadeira de rodas para se locomover…

Além disso, ainda há toda a estrutura de restaurantes e pontos turísticos que ainda não apresentam acessibilidade suficiente, especialmente se compararmos ao que já é possível ver em cidades maiores do Brasil, em que praticamente todos os pontos já estão preparados para atender a todos de forma igual.

Outro ponto interessante é quanto ao cigarro, que por lá é visto muito mais do que em terras brasileiras. Por conta disso, é normal entrar em locais em que é permitido fumar, mesmo em ambientes fechados. Assim, diversos são os lugares públicos que cheiram à fumaça, o que pode incomodar muitas pessoas, especialmente os mais alérgicos.

 

O bom e velho complexo de vira lata

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Quando voltamos ao Brasil, é mais do que normal todos virem falar com você e perguntarem sobre as maravilhas do velho continente, e quão a nossa frente eles estão. Questionamentos como esses acontecem a todo momento e, embora a resposta seja, na maioria das vezes, que eles estão bem à frente, essa não é uma verdade absoluta para todos os casos.

O que ocorre é que nós, brasileiros, gostamos de falar mal de nosso país, de compará-lo com os outros para apontar tudo que está errado, especialmente com Estados Unidos e Europa. Mas, na verdade, não somos tão ruins como imaginamos, muito pelo contrário.

São inúmeros os pontos em que estamos muito mais desenvolvidos que os tais países desenvolvidos, assim como, por mais incrível que isso possa parecer aos mais incrédulos, somos muito respeitados mundo afora. Apenas algumas palavras são necessárias para colocar um sorriso no rosto dos moradores locais: I’m Brazilian. Simples assim.

No fim das contas, o que podemos perceber é que, enquanto não nos respeitarmos, ninguém mais vai. Problemas todos os locais possuem, não se preocupe, basta alguns dias por lá que você irá perceber. Obviamente que algumas situações são piores que outras, mas essa comparação entre nações não para aí. Se faz necessário também fazer uma comparação das coisas boas, a qual eu garanto que o Brasil ganhará em diversos tópicos.

Assim, precisamos parar com esse nosso complexo de vira lata para poder ter uma avaliação mais clara de cada situação. Que temos muita coisa para melhorar é óbvio, basta dar uma olhada no noticiário, mas não pense que essas situações não ocorrem nos países desenvolvidos também, ou que tudo por lá seja perfeito. O mundo é imperfeito como um todo, não somente em terras brasileiras.

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